Projeto Outras Palavras e Outro Olhares sobre Drogas

IMG-20180320-WA0010Abaixo relato da Reunião Ampliada de 26/3 às 17:00h no Hospital Sanatório Partenon:
Estiveram presentes 13 pessoas, algumas novas. Gisele do PRD de Tramandai, Cleide – Casa Nazaré, Karine da Etsus ESP, Maisa redutora de danos, Janaina estagiaria de psicologia sendo terceiro ano em RD, Anderson do Vozes da Rua, Pedro Sitta ed popular do Ação Rua, Elaine Pop Rua, Daiane Carbonera, psicóloga, do Conselho Municipal de Políticas de Drogas e do Mov. Urbano de Caxias do Sul, Belchior Amaral do Fórum Saúde Mental e da Marcha da Maconha e Fátima Machado da Rede de Usuários de Drogas, Samantha Torres da Rede Multicêntrica, Marta Conte da Abramd Sul e Rede Multicêntrica. Discutimos resolução do Conad que propõe mudanças na Política de Drogas com internação compulsória, mapeamento de usuários, dreno de recursos para CTs. Frente a isto precisamos tomar posição atraves do voto e colocar em debate a RD com a sociedade, para desmascarar a hipocrisia e manter-la como contra cultura. Retomamos os EIXOS propostos por Belchior na reunião Abramd e Rede Multicêntrica
1. História 30 Anos RD (engloba conjuntura politica e social, praticas e pesquisas desenvolvidas, analise de pontos criticos, avanços e desafios);
2. Interseccionalidade (capacidade de abordar a RD de forma transversal na diversidade – pop negra, presidios, pop de rua, indigenas, mulheres, crianças e adolescentes, pop LGBT, entre outras);
3. Intersetorialidade. Sugestao de DATA para o Encontro Macrometropolitana: Junho (2 turnos Tarde e Noite). Definir possiveis datas e buscar reserva de local (Ufrgs, AL Dante Barone, MP, etc).
Sugestão de título “Outras Palavras 2: RD produção cientifica e difusão cultural”.
Sugestão de COMISSÕES de trabalho:
1. Registro do evento com responsaveis, pensar formas de registro e como sistematizar ao longo do encontro;
2. Comunicação – divulgacão previa, difusão cultural e científica, uso das oficinas RD em diferentes contextos e do teatro como recursos estrategicos de aproximação ao tema e seus dilemas;
3. Cientifica – organizar mesas e oficinas e sugestão de convidados que desenvolvam os seguintes TEMAS: “Concepção de RD ampliada”: dados relativos aos tratamentos com abstinencia e à RD; dados que associam tráfico e uso com a violência; Estudos de Caso e Relatos de Vida. “Problematizar o tipo de ciência que é defendida na Resolução do Osmar Terra e contrapor com dados sobre danos dos psicotrópicos, agrotóxicos, estilo consumista de produzir saúde, poluição, alimentação, etc”; “Dados sobre CT”;

Proposição de requisitos que nos interessam para os tratamentos dos Transtornos por Uso de Substâncias e do que se espera que os tratamentos mobilizem nos sujeitos? Autonomia, capacidade de análise do contexto onde vive, construção de estratégias que reduzam riscos e danos e ampliem protecao (em Caps, em internacao, em clinicas psiquiatricas, nos dispositivos da cultura com arte & saúde); Apresentação de experiências afirmativas em RD baseadas em evidências (para usar um termo que a psiquiatria convencional defende para enquadrar uma pratica como ciência). “Objetivo estratégico de produção de conhecimento a partir das práticas de RD definindo quais indicadores/analisadores priorizamos numa perspectiva qualitativa”.
(ex. de experiência afirmativa intersetorial – Susepe e Judiciário de Caxias trabalham na ótica de trocar prisão de usuário que se envolve com tráfico pela participação em grupos RD e Círculo da Paz); “Gestão Pública com análise comparativa do custo/benefício dos tratamentos de abstinência e RD” (usar trechos de videodocumentario); “Transição do Acolhimento à Denúncia” (usar teatro); “Comunicação Não Violenta” por acrescentar à RD una vez que serve para mediação de conflito, redução de ruídos, falar com a pessoa e não sobre a pessoa, falar sem acusar (oficina prática); “Anunciar e Denunciar”- como enunciar, corresponsabilizar sem penalizar? (Usar a dramatização). 4. Comissão Logística: buscar local, verificar recursos, escrever projeto para CRP, convidados, transporte, coffee-break, local para almoço, equipamentos para apresentaçao dos trabalhos, materiais para oficinas e para teatro).
Na PRÓXIMA REUNIÃO precisamos construir texto do convite; pensar nas estratégias para chamar participantes dos diferentes segmentos da sociedade para que este debate se amplie e chegue em quem nao conhece a RD ou tem visao reduzida da RD; chamar controle social que influi nas políticas públicas sobre drogas; pensar em meios de divulgação; montar as comissões com nomes de referência para cada uma; tarefas e prazos).

Além disso: Comissões (incluir no Registro/Relatoria a figura do Âncora por atividade que vai colaborar com articulação do tema além de um relator); Eixos, Temas, Metodologias (oficinas, teatro, dramatização, mesa redonda, âncoras, relatores, promoters/divulgadores).

Proxima reuniao 5/4 no CRP as 17:00.

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MOÇÃO DE APOIO À CIÊNCIA E AOS PESQUISADORES BRASILEIROS

Abaixo, divulgamos a o manifesto da ABRAMD nacional e demais órgãos citados.
“A Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas – ABRAMD vem a público manifestar seu apoio à ciência e aos pesquisadores brasileiros para discutir e debater os mais variados temas na sua missão de, por meio da pesquisa, avançar no conhecimento sobre questões da natureza e da sociedade que impliquem, inclusive, na melhoria da qualidade de vida de indivíduos e comunidades.
A ciência se caracteriza pela busca constante de respostas, sempre com o objetivo de trazer luz sobre assuntos e temas de interesse da sociedade, por meio de pesquisas e debates públicos. A liberdade de pensar, questionar, criticar, criar, propor e ousar é marca inerente à ciência, e toda pessoa, independe de títulos, tem a priori o direito de exercer esta liberdade.
A experiência acumulada com o trabalho científico – que requer propor projetos de pesquisa, buscar financiamento para tais projetos, conduzir suas atividades e etapas, formar e orientar estudantes e equipes de pesquisa, identificar e analisar resultados de pesquisa e torná-los públicos à comunidade científica e geral – aliada à originalidade e rigor científico, leva a que alguns pesquisadores adquiram liderança e proeminência em sua área, nacional e internacionalmente.
Elisaldo Luís de Araujo Carlini é um dos mais importantes pesquisadores do país na área de álcool e outras drogas. O Prof. Carlini conduziu inúmeras pesquisas na área, foi o idealizador e um dos fundadores da ABRAMD, um dos cientistas, ex-membro do International Narcotic Control Board (INCB), único brasileiro da área eleito pelo Conselho Econômico Social das Nações Unidas, citado 12 mil vezes em pesquisas científicas nacionais e internacionais, pesquisas em parceria com pesquisadores de países de vários continentes. Fazer desconhecer a trajetória do Prof. Carlini ao intimá-lo a depor por “apologia ao crime” é não somente desprezar esta trajetória, quanto, por um ato de obscurantismo imperdoável, fazer desconhecer os inúmeros benefícios que vêm sendo identificados no tratamento de condições como epilepsia refratária a tratamentos convencionais, mal de Parkinson etc. pelo uso da maconha medicinal, e que encontram nas pesquisas lideradas pelo Prof. Carlini evidências a sustentar e inspirar novas gerações de pesquisadores.
Por essas razões acima, a ABRAMD vem apresentar seu apoio irrestrito à ciência, liberdade de expressão e a possibilidade de inovação com o objetivo de melhorar qualquer área de pesquisa, inclusive álcool e outras drogas.
Instituições que assinam a Moção de Apoio:
 –  Associação Brasileira de Psicologia Social-  ABRAPSO
– Associação Brasileira de Ensino de Psicologia-   ABEP
– Associação Nacional de Programas de Pós-Graduação em Psicologia – ANPEPP
    – Centro de Convivência É de Lei
    – Centro de Prevenção às dependências (Recife)
– Colegiado Regional de Saúde Mental de Ubá e Muriaé
– Conselho Regional de Psicologia de São Paulo-  CRPSP
    – C.O.R.D.E.L. – Coletivo de Redução de Danos de experiências livres de São Luís do Maranhão
– Centro Latinoamericano de Sexualidade e Direitos Humanos- CLAM  –  Universidade Federal do Rio de Janeiro ( UERJ)
– Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Outras Drogas- Universidade Federal de Juiz de Fora (CREPEIA UFJF)
– Fórum de formação em saúde da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP)
– Fórum Popular de saúde mental da Zona Leste de São Paulo
– Fórum de Saúde Mental do Alto Tietê
– Fórum Paulista da Luta Antimanicomial-  FPLAM
– GT Drogas e Sociedade da ANPEPP – Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia
– Instituto Silvia Lane
– Laboratório de Ensino e Pesquisa em Psicopatologia, Drogas e Sociedade (LePsis) da Universidade de São Paulo
–  Movimento  Nacional da Luta Antimanicomial-  MNLA
– Nucleo de Estudos e Pesquisas Lógicas institucionais e coletivas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP)
– Núcleo psicanálise e política da Universidade de São Paulo (USP)
– Núcleo trabalho e ação social (NUTAS) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP)
– Núcleo de estudos sobre drogas da UFC (Universidade Federal do Ceará)
– Núcleo de Pesquisa e Intervenção nas Políticas de Drogas – NUPID/UFSJ- Universidade Federal de São João Del Rei
– Núcleo de Pesquisa em Cognição Social e Saúde (NUPECS), da Universidade Católica de Petrópolis (UCP)
– Núcleo de Pesquisas em Clínica da Atenção Psicossocial – PSICLIN – UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina
– Núcleo Transdisciplinar Subjetividades, Violências e Processos de Criminalização (TRANSCRIM) – UFF- Universidade Federal Fluminense
– Prodequi – Programa de Estudos e Atenção às Dependências Químicas do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UnB)
– Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos-  REDUC
   –   Rede Multicêntrica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
– Sindicato dos Psicólogos no Estado de São Paulo-  SINPSI”
Contatos ABRAMD:
Airá Eventos – 31 3241-5123

Roda de Conversa 2: RD cadê você?

Bom dia a todos!

É com muito otimismo que lançamos aqui o resumo de nossa 2ª Roda de Conversa sobre “Redução de Danos: cadê você?”. O encontro aconteceu no dia 11 de janeiro na sede do Conselho Regional de Psicologia do Rio Grande do Sul na cidade de Porto Alegre. O evento foi promovido em parceria pela ABRAMD-Sul, CRP-07 e Rede Multicêntrica da UFRGS.

Diversos participantes de diferentes movimentos e representações no estado estavam presentes. A reunião foi coordenada por Manuelle Araldi e Fernanda Facchim da Comissão de Políticas Públicas do CRP-07 em parceria com Marta Conte, representante da ABRAMD-Sul-RS. A psicóloga Marta Conte considerou o evento muito potente, pois contou com a participação de mais de de 30 pessoas de vários lugares do estado, incluindo Porto Alegre, Caxias do Sul, Pelotas, Rio Grande, Ijuí e Santa Maria.

Destaca-se a participação da histórica redutora de danos  Fátima Machado, , da ativista social Veridiana Machado, do morador de rua e ativista do jornal Boca de Rua Jorge, educador social Pedro, técnicos do consultório de rua de Caxias do Sul e Pelotas, do Delegado da Polícia Federal de Rio Grande e presidente do Conselho Municipal sobre Drogas do mesmo município, professora Cristiane Barros Marcos da FURG, Alisson Juliano gestora da Coordenadoria Municipal de Políticas Públicas sobre drogas de Rio Grande, estudantes da Escola de Saúde Pública, colegas da da Rede de Saúde e Assistência Social de Porto Alegre, integrantes da Rede Multicêntrica da UFRGS, presidente e tesoureiro da ABRAMD nacional Luciane Raupp e Jardel Fisher Loeck e outros.

Entre os temas debatidos, firmou-se a colaboração entre todos estes participantes e instituições representadas no formato de Fórum sobre Redução de Danos do Rio Grande do Sul. Os desafios iniciais propostos é de que este fórum venha a ter uma identidade, na qual uma concepção clara, ampliada e unificada de Redução de Danos (RD) deverá ser capaz de acolher e abranger a diversidade das ações afirmativas em RD nos diferentes cenários e contextos, sempre respeitando as singularidades e diversidades através de experiências práticas já vivenciadas. Este fórum terá caráter ABERTO, no qual deseja-se aumentar a capacidade de análise da conjuntura atual construindo-se estratégias tais como as de comunicação e mídia para destacar as ações realizadas em RD e fortalecer este movimento.

Para fortalecimento deste fórum estão sendo organizadas oficinas em municípios do interior com Encontro Regionais “Outras Palavras”, evento que terá como apoio central o CRP-07. A proposta é de que ocorram 3 encontros regionais em 2018 (região metropolitana, serra e sul), com possibilidade de um quarto na região central do estado. Estes eventos servirão como base então para um grande encontro estadual a ser realizado em 2019. A metodologia dos eventos prevê oficinas de práticas em RD voltadas à diferentes pessoas e contextos (populações de rua, apenados, crianças, jovens, trabalhadores, professores, indígenas, mulheres, etc). Estas oficinas terão como propósito ampliar a construção de práticas em RD mas também divulgar os efeitos positivos destas práticas para outras dimensões da comunidade de modo geral, já que seus efeitos não se limitam à saúde dos indivíduos diretamente atendidos por esta estratégia como também de aspectos sociais, de segurança, de garantia dos direitos humanos, de prevenção de comportamentos de risco e também de educação.

Ficou firmado nesta roda de conversa uma parceria com foco na PESSOA, uma luta conjunta em prol do bem estar das pessoas, que busca atingir diferentes contextos e dimensões da vida social.

Para mantermos nosso engajamento já está agendado nosso próximo encontro para o dia 1º de março de 2018, na sede do CRP-07 a partir da 16:30h. Enquanto isso, seguem ações em paralelo pela luta contra as mudanças que o atual governo tenta impor, simbolizando o retrocesso à políticas de cuidado em saúde mental, com especial foco em usuários de álcool e outras drogas.

É preciso mostrarmos que as ações em RD são capazes de melhorar a vida de muitas pessoas e da sociedade em geral. Participe conosco e nos dê sua contribuição 😉

I Seminário ABRAMD Sul/RS

Foi realizado nos dias 07 e 08 de julho de 2017 o I Seminário ABRAMD Sul/RS. O evento ocorreu no auditório do Hospital Sanatório Partenon, na cidade de Porto Alegre (RS), e teve como objetivo criar um espaço de problematização, discussão e fomento do controle social que englobasse o ponto de vista dos próprios usuários de álcool e outras drogas, a perspectiva multidisciplinar na abordagem dos fenômenos relacionados a essas práticas, os direitos humanos dos usuários de substâncias psicoativas e as diretrizes de trabalho da redução de danos.

O Seminário também serviu de base para a institucionalização de um núcleo regional ABRAMD Sul/RS, a convite da diretoria nacional da ABRAMD. A proposta deste núcleo regional se realiza na constituição de um espaço permanente de educação, diálogo, discussão, construção de estratégias e disseminação das práticas de cuidado pautadas pela redução de danos. Em especial, a ABRAMD Sul/RS está aberta a compor com outras iniciativas que se alinham à perspectiva do trabalho pela autonomia dos sujeitos e pela liberdade de escolhas, visando o fortalecimento e a resistência em torno dos princípios e práticas antimanicomiais e antiproibicionistas.

Durante o Seminário contamos com a intensa participação de profissionais e ativistas do campo das políticas públicas para álcool e outras drogas de várias áreas de trabalho e de diferentes municípios do estado do Rio Grande do Sul, bem como de outros estados. Nos dois dias de evento circularam pelo auditório em torno de 120 pessoas de diversas áreas de atuação, tais como: Nutrição, Fisioterapia, Terapia Ocupacional, Enfermagem, Psicologia, Antropologia, Serviço Social, Medicina, Artes Plásticas, assim como Residentes e Estagiários de Saúde Coletiva, Serviço Social e Psicologia, e participantes de movimentos sociais. Da mesma forma, o alcance em termos geográficos também foi satisfatório, tendo participado pessoas oriundas dos municípios de Pelotas, Rio Grande, Taquara, Igrejinha, Caxias do Sul, Flores da Cunha, Cachoeirinha, Canoas, Porto Alegre, entre outros. Surge então a proposta de expansão do debate das políticas públicas sobre álcool e outras drogas para o interior do estado, com eventos descentralizados, bem como a ampliação de parcerias com o estado de Santa Catarina.

O Seminário contou com duas Mesas Redondas compostas por convidados (dentre estes, o Presidente da ABRAMD, Prof. Rubens Adorno) e cinco Sessões Temáticas com apresentações de trabalhos selecionados após submissão de resumo, contemplando relatos de experiência e comunicações sobre pesquisas acadêmicas em nível de graduação e pós-graduação, sobre temas diversos e englobando áreas também diversas (acesse aqui o arquivo do I Seminário ABRAMD Sul/RS).

Houve ainda a participação de um grupo de dança de rua; um momento de integração entre pacientes do Hospital Sanatório Partenon – os quais apresentaram trabalhos produzidos por eles durante sua estadia terapêutica no hospital; e ainda uma intervenção cultural que contou com poesias e músicas. Deste modo, o evento cumpriu com sua missão de promover e valorizar a diversidade das experiências que, de alguma forma, promovem a saúde, a igualdade e os direitos humanos.

Dentre os temas debatidos e as reflexões construídas durante o I Seminário ABRAMD Sul/RS, podem-se destacar os seguintes pontos:

  • Contextualizou-se o que vem ocorrendo no campo da atenção aos usuários de álcool e outras drogas no estado do RS, no sentido de uma denúncia sobre o desmantelamento das redes do SUS e do SUAS, e também dos diferentes modos públicos e gratuitos de cuidado às pessoas que fazem uso problemático de álcool e outras drogas.
  • O Seminário possibilitou o fortalecimento dos laços entre profissionais, pesquisadores, ativistas, residentes e estudantes preocupados com as formas atuais de enfrentamento dos problemas em torno do consumo do álcool e outras drogas, e também favoreceu momentos de trocas construtivas entre os participantes. Da mesma forma, favoreceu a ampliação do debate entre profissionais, comunidade e pessoas que consomem drogas, envolvendo todos os setores da sociedade.
  • Considerou-se a desigualdade social como produtora de modos problemáticos de consumo de álcool e outras drogas, assim como facilitadora do envolvimento com o tráfico de substâncias ilícitas e da criminalização do consumo e da pobreza. Na mesma esteira, chamou-se atenção para o fato de que essa realidade contribui enormemente para a criminalização da juventude negra e pobre.
  • Questionou-se as internações compulsórias e involuntárias como forma de cuidado preferencial para pessoas em situação de vulnerabilidade social e envolvimento problemático com o uso de substãncias psicoativas.
  • Considerou-se a Redução de Danos como importante paradigma de intervenção e diretriz de trabalho a ser amplamente difundida nas práticas de atenção e cuidado aos usuários de álcool e outras drogas.
  • Buscou-se priorizar o olhar para as pessoas que normalmente são silenciadas sob o rótulo de “usuário de drogas”, na tentativa de tirar o foco das substâncias e poder produzir deslocamentos subjetivos com abordagens que favoreçam “possibilidades de ser no mundo”.
  • Sugeriu-se ampliar a participação dos usuários nos movimentos sociais como Movimento Nacional de Pessoas em Situação de Rua, Boca de Rua, entre outros.
  • Chegou-se ainda à conclusão de que é necessário aproveitar momentos como o do I Seminário ABRAMD Sul/RS e transformá-los em “trincheiras”, com o objetivo de marcar uma firme posição para a sociedade e para a opinião pública, no sentido de não abrir mão de políticas públicas inclusivas.
  • Por fim, foi feito o convite para uma maior mobilização de profissionais, pesquisadores, usuários de álcool e outras drogas e comunidade no debate sobre as políticas públicas neste campo, para que as necessidades dos usuários sejam respeitadas e o consumo de tais substâncias em nossa sociedade contemporânea seja problematizado por todos, coletivamente, através do diálogo travado entre diferentes opiniões, com o objetivo de construir propostas que sejam plurais, éticas e dignas.

Comissão Organizadora,

I Seminário ABRAMD Sul/RS

Carta de Indignação

CARTA DE INDIGNAÇÃO FRENTE À MISÉRIA DAS POLÍTICAS PÚBLICAS HOJE NA CIDADE DE SÃO PAULO

A Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas – ABRAMD –que congrega pesquisadores, profissionais e cidadãos cujo centro de interesse é a pesquisa e a discussão das chamadas drogas e suas múltiplas relações com a sociedade contemporânea tem como marca de sua origem e missão a insígnia “Ciência e Diversidade”.  Esta não é apenas uma menção, mas uma junção de compromissos: na contemporaneidade não há espaço para a ciência sem que ela seja entendida a partir da diversidade.

Somos uma associação multidisciplinar que considera a natureza complexa dos problemas contemporâneos e acredita que a sua compreensão, e possibilidade de superação exigem uma perspectiva compartilhada, diversa, democrática, em que o conhecimento e as intervenções possam ser partilhados com a diversidade crescente que caracteriza nossas sociedades.

Marcamos esse documento com essa introdução justamente para contrastar e se indignar com as ações que ocorrem na região que a profusão midiática deste país produziu como sendo a “cracolândia paulista”. Por trás das práticas e ações das políticas públicas disseminadas pelo Brasil e, em destaque, hoje, na cidade de São Paulo identificamos a reprodução de mentalidades obscurantistas, métodos autoritários, repressivos e violentos que mostram bem a persistência de uma sociedade que não conseguiu sair do século XVIII, cujo fato histórico mais marcante foram as Revoluções que trouxeram a bandeira do direito dos cidadãos frente à tirania do Estado. Desde então, consciência e indignação têm marcado a utopia e a ciência de uma nova sociedade mobilizada para tratar com respeito, discernimento e profundidade as questões sociais cada vez mais complexas da contemporaneidade.

A declaração universal dos direitos humanos surgiu como reação aos genocídios que cruzaram o século XX e tiveram sua maior visibilidade com os movimentos nazi- fascistas, seguidos pelas décadas do terror na América Latina.

As organizações dos direitos humanos, juntamente com cidadãos, profissionais e pesquisadores, vêm buscando pautar suas ações e as políticas públicas com base no registro da existência da categoria “outro”. Com a consciência de que vivemos numa sociedade cada vez mais diversa e complexa, embora atravessada pelo poder do Estado, pela violência estrutural, pela reação autoritária à existência de direitos e, principalmente, pela expansão de um desabalado consumo estimulado e presente em todos os aspectos da vida social.

Ao pensar o Brasil e as suas tristes cidades, vemos que estas são hoje muito mais um amontoado de regiões partilhadas pelo mercado imobiliário do que aquilo que foi a sua origem – o urbano ou as cidades como o local de contato com as diferenças, com os diferentes.

A situação da região da chamada “cracolândia paulistana” é, talvez, o exemplo mais acabado da miséria de nossas políticas públicas, que produz a miséria da maior parte da população desse país. A presença das drogas (lícitas, ilícitas ou prescritas) como parte do consumo contemporâneo e da busca de bem estar e do cuidado de si, ali também manifesta uma imposição e divisão de mercados.

O viver na rua significa estar vulnerável a esse consumo que, ao mesmo tempo, possibilita uma atividade de troca, comércio, manutenção da vida. As pessoas são expostas ao encarceramento em massa e à repressão constante. A situação de rua e o consumo das drogas desviam a atenção dos mercados ilícitos que, como temos visto hoje na sociedade brasileira, devem estar tramados com as relações de poder, que pouco a pouco vem sendo desvelados.

Acreditamos que estamos diante de uma ação repressiva e de uma cortina de fumaça. As estratégias autoritárias não apenas reproduzem as exclusões e a violência mas são efetivas para que pessoas na margem (na mais alta exclusão social, da moradia e do trabalho, e tendo como perspectiva o encarceramento e a violência) possam ter espaço para desenvolver a reflexividade em torno de seus próprios usos e ter autonomia em relação aos consumos e seus desejos.

Por outro lado, as estratégias que reconhecem esses cidadãos da rua como parte de nossa sociedade, embora insipientes nesse mar de miséria política, têm sido suficientes para demonstrar que dar o direito a um lugar de moradia que não seja a imposição de um acampamento de refugiados ou de uma ocupação – coisas extramente baratas e simples – são eficazes para, gradativamente, possibilitar a esses excluídos cidadãos pensarem que podem ter outras emoções e interesses no seu cotidiano.

O grande desafio do século XXI está no conflito entre as razões de mercado e o respeito às diversidades e aos limites da terra.

A cidade de São Paulo é hoje o palco explícito de uma guerra que usa práticas do passado escravocrata, ditatorial e autoritário, fazendo acreditar que voltamos à época em que o direito de ir e vir era impedido, em que as pessoas, eram discriminadas e eliminadas da vida em sociedade pelas suas marcas corporais. Época, também, de reprimir traficantes, que na verdade nem o são.

Todos sabem que entre as populações de rua, e nas situações de pobreza, muitas vezes cortar um pedaço de pedra, ou partilhar uma pequena quantidade de maconha fazem parte de uma estratégia de sobrevivência. Nem sempre se usa, mas se troca como forma de conseguir uma roupa, um alimento ou uma cachaça.

As estratégias autoritárias impedem que venham a público os, de fato, grandes traficantes deste país, ou do próprio Estado de São Paulo. Tal como as operações recentes que mostram a trama das empreiteiras e dos grandes frigoríficos, qual será a trama do tráfico das drogas consideradas ilegais?

Apenas com ironias poderíamos descrever as prátcas fascistas e a manutenção dos modos de vida dos protegidos da cidade – as nossas tristes cidades – a triste saúde movida pela propulsão do mercado, da especulação imobiliária, dos automóveis, do consumo a qualquer custo como modo de vida. Quanto mais consumimos mais seremos felizes! Drogados são os outros, a nossa química de consumo é mais legitima, a pedra é cinza, o pó é branco, os “viciados” consomem na rua” os “consumidores” recebem em domicílio.

Transformar a região através das demandas e do interesse das construtoras e do setor imobiliário é repetir toda a trama de negócios e estado que estamos fartos de ver nesse último ano. E perpetuar o ritmo da triste cidade com torres padronizadas, shopping centers de todas as faixas e gostos e a circulação de veículos por vias sem nenhum atrativo, a repetição de uma miséria cotidiana, longe da invenção da diversidade da cidade, mas garantindo um consumo viciado e problemático dos bens e produtos do mercado como perspectiva de vida dos dependentes químicos do consumo, e do sofrimento dos que não podem consumir.

O que quer hoje a ação de aprisionamento dos corpos dos pobres e moradores de rua em circulação nas regiões alvo de ação da prefeitura é esconder a pobreza resultante da miséria política brasileira que, apesar de ter em circulação a sétima ou oitava economia do mundo, emprega o mínimo do mínimo para cuidar dos problemas e fenômenos sociais. Cuidar e acolher exigem um processo com a ação da ciência e da diversidade, de local para morar, recurso para se alimentar e se vestir, respeitando a intimidade como direito humano, seja de pobres, médios ou ricos. É isso o que a política que vem sendo chamada de higienista quer: varrer os corpos indesejáveis e fazê-los desaparecer da visibilidade urbana.

É esta a indignação da Abramd!

E é por isso que continuaremos a lutar pela construção de uma política que assegure a garantia dos direitos humanos a todos.

São Paulo, 25 de maio de 2017

Rubens Adorno

Presidente da Abramd

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